Bankia, resgate europeu e o cisne negro da banca espanhola

Nos encontramos em um daqueles momentos em que você sabe que vai acontecer alguma coisa, mas não tem muito claro exatamente o quê. Refiro-Me, claro, a intervenção do Banco Central Europeu (BCE). O mercado não pode sustentar muito mais da situação atual, o que se espera algum tipo de medida por parte da Europa. Os investidores aprenderam que apostar de forma a banda de uma rentabilidade de Portugal a 10 anos e de 9% não é sensato. Sempre pode vir uma medida extraordinária da Europa ou um FMI antes. Isso nós aprendemos com a Grécia, a Irlanda e Portugal. No entanto, o sentimento de esgotamento da capacidade de manobra de Portugal e de suas finanças é evidente, o que leva os investidores a apostar de forma constante a uma rentabilidade de, digamos, 7% a dez anos. Não há vendas judiciais, o mercado cai por seu próprio peso. Poderíamos dizer que o mercado tem claudicado à espera de que chegue “algo” da Europa … sem que nos ka pego de surpresa.

Bankia precisa de cerca de 19.000 milhões de dívida que são “potencialmente” injetadas através de dívida do próprio Estado (ou, ainda por concretizar, do FROB). Este mecanismo consiste no seguinte:

O Estado quer comprar ações de BFA-Bankia, no valor de 19.000 milhões. Se não tiver dinheiro ou em dinheiro, pode optar por pagar a BFA-Bankia com dívida própria. Isto é, o Tesouro emite dívida (compromisso de que irá pagar), por exemplo, 3 anos, dívida que vende a BFA-Bankia, que esta última, por ser um direito de crédito, pode descontar no Banco Central Europeu. É dizer, o Estado vende dívida Bankia-BFA e esta pode recorrer ao BCE para trocá-lo por dinheiro, se, porventura, necessário para atender pagamentos (que é o mais provável que faça).

Qual é a primeira consequência financeira de pagar com a dívida, e não com o dinheiro? Em primeiro lugar, vale a obviedade, o Estado tem a opção de pagar diretamente em euros 19 000 milhões de euros que custam as ações. Mas se você pagar com débito, que é um direito de crédito ou ativo financeiro, temos o problema de que esse ativo está cotada atualmente a 95% do seu valor nominal: para comprar 19.000 milhões de euros, teria que contribuir com 20.000 milhões de dívida em títulos, já que cada título de dívida é valorizada a 95 euros… Não se esqueça que, para o Estado, que emite essa dívida, a obrigação de pagamento assumidas por cada título emitido por 100 unidades. É dizer, eu sai mais caro, em termos nominais pagar com a dívida do que com dinheiro.

Esta solução implicaria que BFA-Bankia utilizar esses bônus para levá-los a desconto ao BCE. É dizer, que finalmente é o BCE que, no final, cria esse dinheiro para Bankia monetizando a dívida de Portugal, o qual não é mais do que replicar um esquema estilo LTRO (as enormes “barras livres de liquidez” para a banca de dezembro e fevereiro).

É difícil estimar como impactará estritamente isto nas finanças públicas, mas uma coisa é certa: a dívida pública subirá por 20.000 milhões de euros e, como é lógico, o pagamento de juros da dívida pública aumentará durante a vida de tais 20.000 milhões de euros emitidos. E, para quem o valor da dissertação sobre se será ou não déficit, é provável (mas não é claro) que a diferença entre o valor de mercado da dívida (95%) e o valor nominal de ações que compra o Estado tenha que ser registrados como despesa no ano corrente, ou seja, que aumente o défice de 2012 em uma décima.

Qual é o impacto econômico de pagar com a dívida, e não com o dinheiro? Um banco como BFA-Bankia, atualmente com 40.000 ou 50.000 milhões de dívida pública espanhola em seu balanço, estaria a carregar de quase 20.000 milhões de dívida. Ou seja, a pessoa que próximo à torre eiffel passa a depender ainda mais de mim mesmo. Pão para hoje e fome para amanhã: se o prémio de risco soberano depende em parte da situação de nosso sistema financeiro, a correlação subirá mais ainda. Se Bankia vai mal, o prémio de risco subirá, e Bankia vai então pior (os seus ativos se deterioram à medida que a dívida espanhola perde valor) e isso voltará a ter um impacto sobre a prima, e volta a começar.

Ir ao EFSF estigmatiza

O EFSF (Fundo Europeu de Estabilização) permite optar por esta solução para os países que não cumpram as exigências orçamentais e que tenham a necessidade de recapitalização das instituições sistêmicas. Neste caso, a linha de financiamento iria sem custos de condicionalidade sobre as finanças públicas do país. Mas claro, o que garantias existem de que um banco capitalizado pelo EFSF possa voltar a financiar-se nos mercados de capitais? Muito poucas.

Como o Governo sabe disso, depois de uma confusa tarde de rodas e notas de imprensa incompreensíveis, realiza um último anúncio. E aqui pode estar a explicação completa. Afirma-Se que o financiamento destes 19.000 milhões será feito através de dinheiro, para obter entre o Tesouro e/ou o FROB. Vale a pena ler a nota para entender por que vamos indo para o EFSF. Além da comunicação, péssima para a já muito danificada “marca Portugal”, isso ultrapassa os limites da mínima exigência técnica na comunicação com o mercado:

Brincadeira número 1: Realmente, o Governo não precisa pesquisar todos os recursos, uma vez que o FROB conta atualmente com uma liquidez de cerca de 5.300 milhões de euros, inicialmente disponíveis para Bankia. É, portanto, precisam de um pouco menos de 14.000 milhões para trazer à tona a este banco, que torna-se totalmente em uma entidade pública.

Explicação: O FROB tem cerca de 5.000 milhões de liquidez, e sendo puristas outros 6.000 em capital não realizado. É dizer, que o Tesouro se deve, mas não se deu em dinheiro. Te devo a Bankia 14.000 euros é tão significativo como te devo 19.000 milhões. O caso é que o Tesouro não foi realizado até a data desses 6.000 milhões, então onde é que levará o dinheiro para pagar esses 14.000 agora?

Brincadeira número 2: A primeira opção que baralha o Governo é que é o Tesouro direto o que você faça uma colocação de dívida nos mercados e obter o dinheiro de que precisa o FROB para financiar a ampliação de capital de BFA-Bankia.

Explicação: no último leilão, o Tesouro emitiu cerca de 2.500 milhões, onde até mesmo a referência mais curta (2015) só pôde colocar cerca de 350 milhões. Com o prémio de risco em 500 pontos-base é francamente surreal pensar que nos podemos financiar por montantes inesperados do calibre de BFA-Bankia.

Brincadeira número 3: você Também poderia acontecer que fosse o FROB o que suscribiera a emissão do Tesouro e pagasse com estes títulos, e não com dinheiro, a ampliação de capital no BFA.

Explicação: Se o FROB subscreve (compra) de emissão do Tesouro obviamente o fará, ou com dinheiro, ou com dívida própria. Mas o FROB não tem dinheiro, por isso que esta alternativa não fazem sentido algum. De fato, isso significaria que o FROB compraria com dívida pública, o que nos retorna ao início deste artigo (o, volte para a caixa de começar!).

Brincadeira número 4: Uma terceira opção é que o FROB entrar em dívida com a emissão de seus próprios títulos e pague com eles a imagem de capital.

Explicação: Se o FROB emite dívida, computando como dívida pública, nada poupando em relação à ideia inicial de comprar as ações de BFA-Bankia, com dívidas do Estado. De fato, seria simplesmente mais caro, uma vez que FROB emite mais caro que o próprio Estado.

Brincadeira número 5: O presidente do grupo, José Ignacio Goirigolzarri, indicou que o aumento de capital no BFA se concluirá ao longo do mês de julho, antes do que prevê o Governo.

Explicação: Isso não é nem engraçado, uma vez que o mais impressionante desta gestão da crise é a péssima gestão dos tempos da mesma. BFA-Bankia pede dinheiro e quem o vai dar diz que o dará, mas mais tarde. O Estado fala de Agosto – Setembro, O Que segurança oferece isso? Isto é uma incongruência com a intenção de contribuir com a segurança!

Brincadeira número 6: O único problema que pode surgir é que o FROB tem um limite de endividamento de 27.000 milhões, e só lhe ficam disponíveis 13.000 milhões, segundo dados de abril, ligeiramente abaixo do que seria preciso para Bankia.

Explicação: Incrível também, já que, desde o seu início, o FROB permitia sob a aprovação de um novo regulamento aumentar sua alavancagem, em seguida, a possibilidade de construir legalmente um FROB de quase 100.000 milhões está aberta. Apenas teria que atualizar o decreto real, tal como disse, quando se apresentou este veículo. Que sentido faz pensar isso agora como uma restrição? O que se pretende com essa afirmação?

Conclusão:

Por um lado, comprar a emissão com títulos ou com dinheiro e passando ou não pelo FROB é, em termos financeiros, quase irrelevante. Que tal possa dar lugar a uma interpretação de contabilidade criativa para que o déficit aumente mais ou para menos não altera o mérito da questão: após o resgate do Bankia, o Estado terá assumido 20.000 milhões de dívida “inesperado”.

O que é mais prejudicial é o impacto econômico da medida. Marcamos mais a dependência entre Estado e bancos, aumentando o impacto potencial para a Espanha de acontecer um evento pouco provável, como por exemplo, a falência do euro. Nós, que estamos construindo um verdadeiro cisne negro bancário em Portugal.

E tantas incongruências na comunicação e na forma de enfrentar a crise do Bankia tornam muito difícil que os possíveis credores não desconfíen o que está acontecendo. Parece já quase certeza de que em breve vejamos o EFSF intervir em Portugal, se é que não optamos por uma nova estratégia de “fuga para a frente”. Uma vez chegados a este ponto, esperemos que não. Embora, desde então, uma vez que o EFSF entre, não sabemos como vai sair.