Eles são realmente os mercados é um reflexo da conjuntura económica?

O dia-a-dia nos mercados financeiros lembre-se ao já famoso ditado de “o Que veio primeiro, o ovo ou a galinha?” Neste caso, o dilema é o Que veio primeiro, o prémio de risco ou a recessão econômica? O prémio de risco é onipresente na sociedade espanhola, invade os meios de comunicação, as redes sociais, e as tertúlias de café. Fazemos um acompanhamento em tempo real de sua evolução, quando há 3 anos não era um termo de uso comum.

O prémio de risco indica quanto mais me custa a mim, Espanha, pedir dinheiro a um prazo de 10 anos com relação a o que lhe custa a outro país, normalmente usamos Alemanha como comparação. Quanto mais sobe (alarga) este bônus, maior é o preço por pedir dinheiro, o que significa que você acha que “eu tenho um risco maior”. Um maior risco por pedir emprestado, como país, está ligada à minha economia vai pior, e um possível credor nosso estima que a economia não cresce o suficiente para pagar os juros dessa dívida, que nos presta (ou, pelo menos, há uma probabilidade significativa de que isso aconteça). Por esta razão nos “corrige” exigiéndonos compensar esse risco com um preço maior (é dizer, por isso pode prefierir evitar e procurar alternativas mais seguras).

Esta é a visão convencional. A prima da determinam os “fundamentais” da nossa economia. Se estendemos o caso geral significa que os mercados financeiros são um reflexo da situação econômica de um país. Mas, quanto há de verdade hoje, sobre estes fundamentais e o prémio de risco? George Soros se levantava a questão em sua “teoria da reflexividade” eles São realmente os mercados reflexo da situação econômica ou a sua volatilidade não é “racional”? A mesma pergunta foi feita por George Akerlof e Robert Shiller em Animal Spirits.

Quando em 2009 o PIB foi quedas homólogas de -4%, o prémio de risco não superava os 100 pontos base. Em contrapartida, o prémio de risco cresce muito mais rapidamente do que a economia se deteriora. De fato, à medida que a economia espanhola estava saindo do afundamento desse -4% (ou seja, decrescendo a um ritmo menor) a prima subiu com força. Nada melhor do que vê-lo em um gráfico com dados reais. Tomemos o seguinte gráfico, onde a linha amarela é o crescimento do PIB e a azul a evolução do prémio de risco.

Se não existe uma total correlação entre o prémio de risco e PIB, pode ser interpretado como que perdemos margem de manobra (para gerar crescimento futuro) e os mercados pensam (acreditam) que é assim e que, por conseguinte, a devolução da dívida não está isenta de riscos, apesar de que os dados de crescimento não sejam tão negativos como há 3 anos.

Mas isso deveria nos levar a uma questão de maior calado, até que ponto é saudável ser fixados objectivos de política económica baseada exclusivamente no prémio de risco? Você está deteriorando nossa economia tão rápido como o prémio de risco? Você Está subindo o buraco orçamental de Portugal a essa velocidade? Você cai e o PIB, a taxa de crescimento do prémio de risco? As respostas são todas negativas. Nós temos caído na armadilha da reflexividade dos mercados? A resposta pode ser positiva. Atualmente, os preços de mercado estão afetando a própria economia em maior medida do que esta para os primeiros.

Vamos fazer uma pausa por um momento em um grande exemplo citado por Akerlof e Shiller em Animal Spirits:

“Não se pode demonstrar de forma conclusiva que o comportamento do mercado de ações tenha sido irracional. Mas com toda esta polêmica, ninguém apresentou provas reais que comprovem que a volatilidade é racional.

(…) As variações de preços tendem a estar relacionadas com mudanças sociais de vários tipos. Andrei Shleifer e Sendhi Mullainathan analisaram as mudanças na publicidade de Merrill Lynch. No início da década de noventa, antes de que se produza a bolha do mercado de ações, a publicidade de Merrill Lynch mostrava um avô que pesca com seu neto. No rótulo se lia ‘talvez você deve planejar torná-lo rico, pouco a pouco’. No ano de 2000, quando o mercado havia atingido o ápice e os investidores estavam logicamente satisfeitos com os resultados obtidos, a publicidade e a Merrill mudou completamente. Passou a ser uma fotografia de um chip de computador em forma de tudo. O rótulo dizia: ‘liga-te…sei alta’. Após a subseqüente correção do mercado, Merrill recuperou o avô e o neto que pescavam carregados de paciência. O rótulo dizia: ‘renda para toda a vida’. Indiscutivelmente, os profissionais de marketing que criam estes anúncios estão realizando um acompanhamento de perto do que pensa o público à medida que ocorrem mudanças com o passar do tempo. Por que deveríamos acreditar que suas opiniões profissionais valem menos do que as dos professores de economia e defensor do livre mercado?”

E é que a teoria financeira ortodoxa acredita que os mercados tendem para um equilíbrio: para um determinado nível de demanda, encontraremos uma determinada oferta que, casando volumes, nos dará um preço de equilíbrio, o qual não é mais que o reflexo dos fundamentos económicos da oferta e da procura. Em contrapartida, a reflexividade coloca uma maior ênfase na relação circular preços – economia. Nesta hipótese profecias autocumplidas, que foi transposta para as finanças tradicionais” durante os últimos anos, os preços afetam os fundamentais económicos, o que afeta a geração de expectativas, que por sua vez afeta os preços. E este processo continua em um padrão que se auto-reforça.

Foi a própria filosofia da ciência a que cunhou o referido efeito de “profecia auto-cumprida”. Tanto Robert Merton como até mesmo Karl Popper estudaram esses fenômenos, especialmente no caso das ciências sociais. Os agentes, ao aguardar um evento, mudamos nosso comportamento, até tal ponto que nós fazemos mais provável que a referida previsão se realize. E por que é relevante para nós, esta ideia hoje em dia? Porque considero caíram nessa situação, em que as previsões afetam o comportamento presente.

O exemplo que Soros costuma utilizar é o da prociclicidad. Em “a alquimia dos mercados financeiros: lendo a mente para os mercados financeiros”, do ano de 1987, Soros descreve o padrão do crédito imobiliário. Quando a economia cresce e semelhança “invencíveis”, os bancos querem emprestar mais e reduzem os padrões de riscos para emprestar. Quando a economia piora, os bancos restringem seus critérios de concessão de empréstimos e diminui o crédito imobiliário, o que afeta os fundamentos do setor imobiliário, imediatamente, através de uma menor demanda, o que influencia as expectativas dos construtores e famílias que oferecem imóveis, que abaixam o preço, dando sinais de enfraquecimento econômico. Sinais que, por sua vez, incorporam os bancos através de um maior endurecimento do crédito. E assim por diante. O mercado pode, em algum momento, tendendo ao desequilíbrio baixista ou altista por fases, nas quais o efeito das expectativas sobre os preços é a chave, o que pode explicar o padrão de criação de bolhas (boom and bust).

Como temos repetido muitas vezes, tudo indica que caíram nesta prociclicidad. Antes, no sector imobiliário, e agora com a austeridade. Ao afetar nossas expectativas, com o endurecimento dos fundamentais económicos (austeridade), isso está a traduzir em maiores preços da dívida que, de novo afetam negativamente as expectativas. Objetivo urgente e imediato: quebrar a prociclicidad.

Como saímos deste ciclo? Uma das três seguintes acções pode quebrar a relação circular:

:: Uma elevação exógena de preços: por exemplo, o BCE comprar dívida criando inflação de ativos.

:: Uma mudança exógeno de expectativas: por exemplo, sinais claros do Governo de que “as coisas vão melhorar”, independentemente da situação atual. Por exemplo, ser firmes ante o fechamento de bancos não “úteis” e, assim, bandeira que o cenário do crédito, espanhol pode melhorar (porque os saneados melhorar, como afirma Daniel Lacalle)

:: Uma melhora dos fundamentos econômicos: por exemplo, com qualquer das medidas estruturais que nós promulgamos aqui ou aqui.

Tudo isso parece óbvio ou muito fácil de compreender, mas é necessário levantar branco sobre preto. Temos caído em um ciclo vicioso do qual não sairemos se não agirmos sobre uma dessas variáveis. A pergunta do milhão é o ajudaria um pacote de 100.000 milhões a sair desta situação? A resposta é: é claro que eu não. Depende de para que se use. Se conseguirmos criar inflação, ou se conseguimos quebrar a geração de expectativas negativas com isso (fechando por exemplo, um banco) ou criando crescimento, pois esse pacote de resgate será útil e produtivo. Mas, se dedicarmos o dinheiro para deprimir o consumo (por exemplo, subindo mais o IVA ou descendo pensões) e a provisionar mais crédito saudável de bancos que mantemos abertos, Portugal não poderia sair do loop.