O rigor da canícula sobre o prémio de risco

Já chegou o verão e quando o termômetro começa a subir com ele arrasta o prémio de risco. Historicamente, os mercados de dívida tomaram “férias”, a sua actividade foi reduzido de forma significativa durante os meses de verão e a falta de liquidez-profundidade produzia movimentos mais réus com menor volume de negociação. Esta sazonalidade deixava os mercados em stand-by, mas há um par de anos, as curvas de dívida sofrem de forma notável durante o verão, por diversas circunstâncias que se ligam à menor profundidade de mercado.

O que aconteceu em 2011 e 2012?

Se paramos para analisar o que aconteceu no verão de 2011: a crise grega, as dúvidas sobre a solvência do sistema financeiro Português (com novas provisões imobiliárias, onda de fusões e teste de estresse), e mais tarde sobre a Itália, e o efeito contágio entre os países periféricos, levaram o prémio de risco a roçar os 400 p. b. na primeira semana de agosto. Neste caso, foi a intervenção do Banco Central Europeu (BCE), que conseguiu acalmar a ansiedade reinante a tomar medidas, tanto convencionais, duas descidas de taxas de juro no final de 2011, como não convencionais, como a ampliação do programa de compra de dívida garantida e dinamização do mercado interbancário (1ª LTRO entre elas). Enquanto isso, Bruxelas orquestaba a troika, ampliando o resgate à Grécia e, embora no outono desse mesmo ano, surge a necessidade de reforçar a capacidade de EFSF e discutidos os eurobônus, nenhuma destas propostas, consegue ser aprovado no seio de uma União Europeia bastante hesitante.

Mas 2012 começou com a 2ª LTRO, o verão não foi mais repousado, as eleições gregas e o pedido de assistência financeira de Portugal para a recapitalização do sistema bancário, fizeram com que a curva espanhola aumentou a níveis máximos. Assim, em 2012 o diferencial Portugal-Alemanha superou os de 630 p. b. atingindo a sua cota mais elevada. Novamente, as decisões da cimeira europeia e as declarações de Draghi sobre o apoio do BCE (“whatever it takes”) contiveram a escalada e afastou a tempestade.

O que esperar em 2013?

Se compararmos os três anos, cabe destacar como nota positiva que em 2013 partimos de níveis mais conteúdo de dívida, mas o anúncio de que o FED irá retirar, paulatinamente, o seu programa de compras tem levado aos mercados de dívida de novo ao território da dúvida. E, de novo, coincidindo com o verão assistimos à ampliação da rentabilidade que paga o bônus espanhol a 10 anos no mercado secundário. Se bem que o anúncio do FED tem afetado tanto a países como núcleo a periféricos, eles sempre levam a pior parte, a partir de níveis de rentabilidade maiores. O segundo colocados os mercados asiáticos e algum pop-up que obscurecem mais um futuro, por si só, incerto.

Apesar de fazer previsões é sempre complicado, não há indícios de que o mercado vá para melhorar. As duas contrapartes que podem fazer algum anúncio que aliviase a pressão sobre os níveis de dívida dos países periféricos, a saber Bruxelas e o BCE, não se espera que o façam.

Se bem que o Eurogrupo aprovou na semana passada que o ESM (Mecanismo Europeu de Estabilidade) possa recapitalização diretamente os bancos em até 60 milhões de euros, os governos nacionais devem assumir parte do custo e a medida entrará em vigor em meados de 2014. Pode definir algumas medidas na cimeira europeia, mas descafeinadas, como o apoio do BEI para a promoção do emprego dos jovens. Nesta frente além disso, o debate sobre o fim da Troika está em cima da mesa, com cruzes de acusações entre o FMI e a Europa sobre os inegáveis resultados desastrosos dos resgates e a necessidade de reestruturação de dívida para determinados países.

O principal freio para qualquer anúncio substancial por parte das autoridades europeias ou do banco central, que são as eleições que terão lugar no próximo mês de setembro. Se você para para observar a alternância de partidos que a crise provocou na Europa, é normal que nenhum partido político querer assumir as conseqüências de uma maior socialização das perdas. Em conclusão, espera-nos um verão quente em volatilidade e gelado em anúncios de novas medidas.

Sobre a autora:

Mercedes Storch. Economista.